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Onde Morre o Amor

Capítulo 1

Antes de começar

Havia três coisas que o intrigavam desde a infância: o universo, a bondade humana e o amor. 

Perdeu-se pela primeira vez ao compreender que o ser humano ainda não entende o universo — e talvez jamais entenda. Perdeu-se novamente ao descobrir que nem todas as pessoas são boas. E perdeu-se de vez quando percebeu que, apesar de falarem tanto sobre amor, poucos sabem defini-lo.

Anos depois, essa última perda se aprofundaria com a morte da sua única amiga. Desde então, passou a carregar um peso diferente. A ausência dela se misturou às antigas perguntas, e a tristeza ganhou um lugar fixo dentro dele, mesmo quando tentava fingir que estava bem.

A música alta das festas deu lugar a uma ansiedade persistente. Os beijos sem afeto foram substituídos por um vazio crescente no peito. E, por trás de tudo isso, a saudade da amiga permanecia, moldando seus dias, roubando sua energia e aprofundando um estado que ele ainda não sabia nomear.


 

1. JHULLY

93 dias antes da despedida


 

Jhully era o tipo de pessoa que iluminava ambientes sem esforço. Doce, sincera, simples no melhor sentido da palavra, carregava um sorriso constante e uma delicadeza que fazia com que todos se sentissem vistos ao seu lado.

Era querida por todos. Havia nela uma presença que atraía — não pela vaidade, mas pela luz. Seu abraço transmitia segurança, e suas palavras tinham o poder de acalmar inquietações que nem a ciência saberia explicar. Sua vida parecia promissora, como uma história destinada a ser longa e bela.

Ela enxergava algo nele que poucos percebiam. Dizia que ele divagava quando conversavam, que havia profundidade por trás do silêncio. Eram diferentes, mas se entendiam. A amizade entre os dois não dependia de semelhanças.

Ele sabia que tinha alguém raro ao seu lado. Sabia que era um presente.

Certa vez, ela lhe perguntou:

— Por que você não sorri mais? As pessoas gostam tanto de você, mas você nunca se aproxima.

Ele não respondeu. Não por falta de palavras, mas por falta de disposição para se expor. Aproximar-se significava correr o risco de perder. E, mesmo antes da perda, ele já vivia com medo dela.

Sempre foi reservado. Preferia o silêncio às explicações. Mantinha-se à margem, muitas vezes confundido com frieza, quando na verdade era proteção. Havia nele uma amargura silenciosa, fruto de antigas feridas que nunca foram tratadas.

Acreditava que o isolamento o protegeria. Se não se entregasse, não seria ferido. Se não se aproximasse, não perderia.

Mas perdeu, só não sabia disso ainda.


 

A solidão cobra caro. Mais do que ele imaginava poder pagar.

Com o passar do tempo, percebeu que já não conseguia sustentar aquele isolamento que escolhera como abrigo. Nas noites frias de inverno e nos dias abafados de verão, permanecia sozinho — apenas consigo mesmo. Sem família por perto. Sem amigos. Não por falta deles, mas por decisão própria.

Durante muito tempo, acreditou que dava conta. Convenceu-se de que era forte. Até perceber que já não se reconhecia.

Não sabia mais do que gostava. Não tinha vontade de nada. Os dias se tornaram uma sequência mecânica, vazia de sentido. 

Sentia-se sem direção e sem alguém que lhe dissesse para onde ir. Era como estar sem trilha, sem bússola, sem norte. Um corpo presente com a alma cansada.

Passava o tempo do jeito errado, tentando anestesiar a dor em distrações que não curavam. Via-se como o resto de uma história interrompida, um projeto abandonado sem continuidade.

Jhully era a pessoa mais alegre que ele conhecia. Um dia, tomado por uma curiosidade que misturava admiração e cansaço, perguntou:

“Como faço para sorrir mais?”

Ela respondeu com outra pergunta:

“Quando você olha para o céu, o que vê?”

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

“Não vejo nada”, disse por fim, encarando o céu nublado. “Só nuvens cobrindo o azul.”

“E você precisa de mais do que isso?”

Ele hesitou.

“Eu só quero ser feliz.”

Jhully respirou fundo antes de falar:

“Diego, a gente não tem tanto a perder quanto pensa. A vida é frágil. Pode acabar amanhã. É como um sopro. Se não aprendermos a viver o que temos agora, vamos chegar ao fim carregando arrependimentos.”

Depois disso, ela ficou em silêncio, observando o céu por longos minutos.

Ele, ao lado dela, não entendeu de imediato.

Demorou anos para compreender aquelas palavras.

 

O leitor poderia pensar que a solução era simples: sair, beber, se divertir, dançar, gritar, viver qualquer coisa que parecesse movimento.

Para Diego, nada disso fazia sentido. Ainda assim, precisava tentar. A alternativa era permanecer fechado no quarto, encarando o teto, esperando que algum tipo de loucura o encontrasse antes do amanhecer.

Aceitou o convite de um conhecido chamado Taylor e foi a uma festa com alguns amigos dele. Não eram próximos. Taylor, assim como ele, também não era exatamente sociável.

Naquela noite, decidiu beber sem reservas. Vodka pura, com gosto artificial de maçã verde. Achou horrível, mas insistiu. Não buscava prazer — queria anestesia. Tentava sufocar a saudade, a culpa e o vazio.

Quando chegaram à fila da festa, a primeira coisa que percebeu foi o quanto tudo parecia desencaixado. Pessoas que mal se suportavam reunidas no mesmo espaço, fingindo alegria. Aquilo o incomodou, mas ele seguiu em frente.

Bebeu rápido demais.

Em pouco tempo, já estava alterado o suficiente para começar a falar com qualquer um que cruzasse seu caminho. Falou sem parar. Riu alto. Disse coisas que não lembraria depois.

O restante da noite virou um borrão.

Algumas imagens voltavam em flashes desconexos. Outras ele nem sabia se eram reais. Taylor contou que ele vomitou no banheiro. Também perdeu a carteira.

Um começo ruim, em todos os sentidos.

Na manhã seguinte, acordou exausto. O corpo pesado, a cabeça latejando, o estômago revirado. A solidão continuava ali, intacta — agora acompanhada de ressaca e arrependimento.

Deitado, encarando o teto, os pensamentos vinham em forma de acusação:

Por que tudo dava errado?
Onde estava o defeito nele?
Por que se sentia quebrado o tempo todo?

Via-se como alguém desconectado de si mesmo, tentando viver no automático, como um homem de lata incapaz de ouvir o próprio coração. Um jovem perdido, tentando pular capítulos da própria história sem sequer ter aprendido a começar.

No fundo, sabia que não era a bebida que o destruía. 

 

A gaveta e a geladeira guardavam coisas que o entorpeciam. O peito, um vazio profundo e uma tristeza solitária que não sabia explicar.

Parado diante da janela, sentiu aquele pensamento surgir, baixo e insistente, como um sussurro perigoso:

“E se você pulasse?”

Assustado com a própria mente, pegou o telefone e ligou para Jhully no meio da madrugada.

“Alô? Jhully?”, murmurou assim que ela atendeu. “Como você está?”

“Oi, Di…”, respondeu ela, com a voz ainda pesada de sono. Houve um breve silêncio. “São cinco e trinta e seis da manhã. O que aconteceu?”

“Nada. Eu só estava triste… e precisava conversar.”

“Tudo bem. O que te deixou assim?”

Ele pensou por alguns segundos antes de responder.

“É a vida. De novo. Parece uma folha em branco, mas meu lápis está quebrado.”

Jhully respirou fundo do outro lado da linha.

“Fica calmo. A gente precisa viver um dia de cada vez, senão enlouquece. Amanhã, quando acordar, pensa em algo que você queira fazer — qualquer coisa — e faz. Sempre existe algo pequeno que pode aliviar.”

Conversaram por alguns minutos. Ele falou do que sentia, ainda sem saber dar nome àquilo. Ela disse que ele faria falta. Que gostava dele. Que ele importava.

Depois disso, conseguiu dormir.

 

Quem lê pode imaginar que havia algo romântico entre eles.

Não havia.

O que existia era algo mais raro.

Jhully lhe apresentou um tipo de amor que não pede nada em troca. Um amor que escuta, permanece e torce silenciosamente pela sua recuperação. Um amor de amizade verdadeira.

E, sem perceber, ela também o ensinava sobre amor-próprio — aquele que sustenta todos os outros. Jhully carregava isso de forma natural. Sabia cuidar de si, mesmo enquanto cuidava dos demais.

Ele não estava apaixonado por ela.

Estava sendo salvo por ela.

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