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Se o dinheiro não importasse, o que você faria? - Capítulo 1
Em uma cadeira de couro legítimo, atrás de uma mesa de alto padrão, um homem na casa dos 30 anos, com o cabelo levemente grisalho, olha para sua mão trêmula, enquanto seu coração palpita e seu corpo sente constantes calafrios. “Será que estou infartando?”, pensa. “Não, não parece um infarto. Meu braço não está dormente. Talvez seja um AVC”, respira. Olha para cima, com o estômago embrulhado. Em cima de sua mesa, uma placa escrita “diretor”. Cargo, esse, que custou muito a Jason.
Aos 17 anos, ele ingressou no curso de administração de empresas. Nunca foi o aluno mais esforçado, muito menos o que tinha as melhores notas, sempre fez o básico para passar de ano e, no seu tempo livre, imaginava formas de ficar rico. Com 18 anos, ele ingressou no seu primeiro estágio. Ao chegar lá, sentiu, pela primeira vez, o nervosismo de estar trabalhando em um escritório. Conheceu a todos, tímido como nunca. Sua garganta secava toda vez que tinha que falar com alguém.
Seu chefe, certo dia, o pediu para escrever um relatório. Quando começou, Jason percebeu que faltava conhecimento. Ansioso por desafios, ele dedicou-se a aprender mais. Aos poucos, foi tornando-se importante para o escritório e ganhando a confiança de seus superiores. “O menino que resolve problemas”, era como o chamavam. Sempre que tinha uma picuinha para resolver, uma impressora para futricar, um computador velho para fazer funcionar, ou um relatório extremamente chato para fazer, eles chamavam Jason. Com 19 anos ele foi efetivado na empresa, como assistente de escritório. Desde então sua vida profissional começou a dar certo. Ele, apesar de preguiçoso, continuou excelente em resolver problemas, tarefa muito valorizada nas empresas. Poderia, no entanto, ter sido promovido mais facilmente se fosse mais comunicativo e menos tímido. Não dá para ter tudo nessa vida.
A carreira profissional de Jason não foi meteórica, como ele queria. No seu sonho, aos 20 anos ele estaria rico. Isso não aconteceu. O jovem Jason teve de resolver muitos problemas de outras pessoas, engolir muitos sapos, contar lorotas empresariais, aguentar chefes chatos e mitigar-se em meio a um mundo do qual ele nunca foi fã. Jason foi do céu ao inferno muitas vezes, chegou em casa exausto quase todas. Seu objetivo, porém, era único: levar orgulho para a sua família.
No auge de seus vinte e cinco anos, já como gerente de marketing, ele conheceu Roberta, filha de um dos executivos da empresa em que trabalhava. Em seis meses, estavam casados. Talvez isso tenha o ajudado a ser promovido mais rápido, mas seu amor por Roberta era genuíno, assim como seu talento empresarial.
O pai de Roberta chama-se Otávio, um senhor de bigode enorme, dizia: “meu bigode vale mais do que todo o dinheiro do mundo”, referindo-se a sua palavra. No altar, Otávio sussurrou no ouvido de Jason: “se magoa-la, eu arranco seus bagos e dou de comer aos cachorros”.
No ápice de sua felicidade, Jason assistiu Roberta entrar com um véu de noiva longo pela porta da Igreja. Seus olhos lacrimejaram como nunca antes. Seu corpo arrepiou-se. Tinha certeza de estar diante do amor de sua vida. Eles se beijaram, ela disse sim, não exatamente nessa ordem. O arroz foi jogado, as latas balançaram, o casamento foi consumado. A lua de Mel foi no Caribe. Ao chegar de volta ao escritório, recebeu o cumprimento de todos. Jason era o homem mais feliz da cidade naquele momento. Agora, ainda, tinha um motivo a mais para trabalhar: levar o melhor do futuro a sua querida esposa.
Roberta não precisava de dinheiro, mas Jason queria provar que poderia dar mais a ela do que seu pai já tinha dado, talvez esse tenha sido o primeiro problema do relacionamento. As horas extras vieram quando ele fez mais contas do que deveria. Adquiriu um carro financiado que não cabia no seu orçamento, logo em seguida financiou uma casa que poderia abrigar uma família de dez pessoas, apenas para os dois. Então vieram as viagens, os cartões de crédito, os empréstimos. Ela nunca disse não, pois sabia que se um dia precisassem, seu pai ajudaria. Quando precisou… no entanto, Jason negou-se a receber ajuda do sogro, isso iria ferir a sua honra masculina. Ele preferiu trabalhar em dobro e ainda assim não era o suficiente. As rugas começaram a tomar conta do seu rosto. De olheiras profundas, parecia que Jason havia sido espancado na noite anterior. As coisas foram ficando cada vez piores e, toda vez que ele tentava tomar o controle da situação, ele perdia ainda mais. As brigas foram se tornando recorrentes e, a cada promoção no trabalho, o sentido parecia renovar-se, porém logo ia embora. Jason não entendia o que estava fazendo de errado. Ele era um homem fiel, um profissional dedicado, cada vez mais renomado, sentia que podia conquistar tudo o que quisesse, mas toda vez, na volta do trabalho, um vazio enorme assolava seu coração. Na mesa de escritório, assim como na mesa de jantar, ele não se importava de lidar com a tensão. “Como foi o seu dia?” – ela perguntou. “Estão falando que vou ser promovido a diretor” – ele respondeu.
– Parabéns! – disse Roberta, sorrindo.
– Minha última campanha trouxe uma conta milionária para a empresa. – falou orgulhoso.
– Muito legal. Você é o melhor. – respondeu, segurando a mão dele.
Os momentos de tranquilidade e alegria aqueciam o coração deles e seguraram o relacionamento por muitos anos. Porém, quando Jason foi promovido a Diretor, as coisas ficaram ainda mais complicadas dentro de sua casa. Junto com um cargo mais importante, vieram problemas mais importantes, que tiravam seu sono a noite. O que antes ficava dentro da empresa, agora juntava-se à casa de Jason. Há anos eles pensavam em ter filhos, mas isso não se concretizou. O tempo mitigou seu relacionamento. Os planos foram deixados de lado, a felicidade acomodou-se em um canto da sala. As brigas eram frequentes, quase diárias, por motivos irrelevantes, a maioria inventados. Um amor próspero, aos poucos, tornou-se um amor afetivo, que quando percebeu-se, não era mais nada. Os olhares temiam, as mãos não se tocavam, as palavras eram frias e rígidas, como pedras de jardim. Quando percebeu-se, nada mais havia.
Roberta, com lágrimas nos olhos, pediu o divórcio. Ele insistiu em tentar solucionar, mas ela juntou coragem para essa decisão durante meses e não voltaria atrás. Os papeis foram assinados, os corações foram dilacerados e as lágrimas tomaram conta das noites em claro de ambas as partes. Ele pensava o que poderia ter feito diferente, ela pensava o porquê não era o suficiente para ele. Dois meses antes de completar 32 anos, Jason alugou uma casa. Sentado no chão do quarto vazio, um filme passou em sua cabeça. Nesse filme acontecia tudo o que poderia ter dado certo na vida deles. Naquele quarto, duas crianças correriam soltas, adoidadas. Na porta do quarto, sua esposa, parada, sorrindo. Ele chegava, largava sua mala, dava um beijo em sua boca, as crianças corriam até o seu colo, ele as abraçava. Eles jantavam, felizes, em sua mesa iluminada por um belo lustre. No jardim, um labrador. Uma árvore de manga, com orquídeas ao lado. Suas lágrimas tocaram o chão do quarto na mesma intensidade em que o filme acabou. Nada mais havia. Nada mais ouvia-se. Criança nenhuma gritava. Mulher nenhuma sorria. Ele tinha tudo em um dia, no outro não tinha mais nada.
No escritório, seu semblante estava entristecido. Seu estagiário, Marcus, perguntou: “O senhor está bem? Parece abatido”. “Estou bem sim, estou um pouco gripado”, disse, negando-se a conversar sobre sua vida pessoal. Jason começou a beber, somente aos copos de Whisky do Bar da Avenida 94 ele dizia “sim”. No dia do seu aniversário, ele bebeu tanto que dormiu na calçada. Essa foi a primeira vez que ele faltou ao trabalho sem ser por motivo de saúde física. Ele não admitia a si mesmo que precisava de ajuda, para dar a volta por cima e restabelecer sua vida. Jason negava-se a sentir, ainda que sentir seja algo natural e obrigatório. Seus colegas de trabalho percebiam que ele não estava bem.
Ele negava. “Um diretor de sucesso jamais pode receber conselhos dos seus colaboradores”. Seu peito, enrijecido, acometido por doenças invisíveis, fechou-se por completo. Os doze meses seguintes foram os mais difíceis de sua vida. No auge de sua carreira profissional e financeira, mas dançando com o burnout e com o fracasso familiar e pessoal. Duas horas antes de estar olhando para sua mão trêmula, enquanto seu coração palpita e seu corpo sente constantes calafrios, suspeitando estar tendo um AVC, ele recebeu duas notificações difíceis no seu celular. A primeira, uma mensagem de Roberta, transcrita da seguinte forma:
“Obrigado por tudo, os papeis do divórcio saíram. Eu lamento por não termos dado certo. Ou, talvez tenhamos dado, enquanto foi possível. Agradeço-te por todos os anos de companhia e pela história que construímos juntos, sinto muito orgulho do homem que se tornou e tenho certeza de que a vida ainda te reserva muitas alegrias. Desejo que, na sua nova jornada, você encontre pessoas de bem e alguém que possa te entregar o que não pude. Você é um ser humano incrível, não esqueça disso. Olharei para trás sempre com gratidão.”
Tentando conter as lágrimas, com o peito estufado e o estômago embrulhado, uma segunda notificação chegou no celular. Dessa vez, do Facebook, dizendo que sua conta de anúncios foi bloqueada, com um orçamento de gastos de 500 mil por dia. Isso significava um prejuízo de 41.600,00 em faturamento por hora, equivalente a um prejuízo bruto total de um milhão por dia. O prazo médio de análise do Facebook é de duas semanas, podendo chegar a um mês. Ele engoliu a vontade de chorar e substituiu pela vontade de surtar. Levou a mão ao bigode, coçou a testa, pensou: “p… que me pariu”. Ligou imediatamente para o Facebook, mas foi atendido por um funcionário que nada tinha a fazer. Enquanto suspeitava estar tendo um AVC, o estagiário Marcus entrou na sala e disse: “A nova diretora do financeiro quer falar com você”. “O que ela quer?”, respondeu. “Não me disse”. Marcus perguntou se Jason estava bem, pois estava pálido, e... Mais uma vez ele disse que sim. Levantou da cadeira e pediu: “Marcus, eu preciso que você crie uma nova conta empresarial no Facebook”.
– Como eu faço isso? – perguntou o estagiário.
– Descubra. – Disse Jason, indo em direção a sala da nova diretora do financeiro. “Estou acabado!”, pensava. Abriu a porta e entrou.
Sentada na cadeira, uma mulher de quarenta anos, cabelos longos e pretos, olhar ameaçador e, com um tom de voz dilacerante, disse: “Olá, Jason. Não nos conhecemos ainda, mas me chamo Márcia, precisamos conversar”.
Cumprimentaram-se, ele sentou, gélido, pálido, apavorado e em completo silêncio. “Tudo bem?”, ela perguntou. “Sim, sim…”.
– Bom, vou direto ao ponto, imagino que esteja ocupado. O conselho pediu para avisar que vamos aumentar o valor de investimento em tráfego no próximo trimestre, um aumento de… deixa eu ver… – ela sacou uma pasta de papéis que parecia o rascunho de um livro – 80% ao mês.
– Sério? Que bom. – disse, aliviado. “Não estou demitido”, pensou.
– Sim. Os resultados tem sido satisfatórios. Vou enviar por e-mail as diretrizes e gostaria de marcar uma reunião para conversarmos a respeito. Pode ser?
– Sim, sim… segunda-feira pela manhã, pode ser?
– Combinado.
Era sexta-feira, 17h. Jason voltou correndo para sua sala, ainda em pânico, sem saber como iria resolver a situação da conta bloqueada. Entrou na sala e perguntou a Marcus: “conseguiu?”. Ele respondeu: “sim… acho que sim”. Jason foi até o lado dele, olhou a tela do computador e pensou: “é… até que o garoto é bom”.
Aos poucos, o escritório foi ficando vazio. Um a um, todos seguiram para as suas casas, as janelas foram fechadas, o ar condicionado foi desligado, mas Jason ficou. O relógio apontava 22:00 quando ele terminou de subir todas as campanhas, sem ter certeza ainda de que voltariam a funcionar como antes. Naquele segundo, Jason olhou para a janela da rua, percebeu o céu iluminado pela lua e orou a Deus: “Senhor, esse é um momento em que preciso de sua ajuda. Por favor, faça com que tudo fique bem e estas benditas campanhas desempenhem como antes”. Talvez se Jason tivesse dedicado-se tanto ao seu casamento quanto dedica-se ao trabalho, sua vida com Roberta teria sido diferente. Quando estava prestes a ir embora, recebeu outra mensagem em seu celular: “Facebook: terminamos a análise e sua conta de anúncios foi desbloqueada”.
– Filho da p…– Exclamou.. – Fiquei até agora pra nada. – Disse, antes de voltar ao computador e desfazer todo o trabalho que tinha acabado de terminar, mas aliviado que seu emprego estava garantido e as campanhas voltariam a performar normalmente. “Obrigado, Deus”. Jason voltou para casa pensativo, questionando se valia a pena tanta preocupação. Ele imaginou que estava tendo um AVC, ciente de que alguns colegas tão jovens quanto ele já tinham tido, apesar de não ser algo normal. Ao chegar em casa, defrontou, mais uma vez, a terrível solidão, companheira inseparável dos últimos meses.
Deitado na cama, com olhos arregalados, estupefato pelo que tinha acontecido nesse dia, ele concluiu: “eu preciso mudar ou vou morrer”. Na internet, pesquisou: “psicólogos próximos”. Analisou atentamente todas as avaliações e separou as duas opções preferidas. Um psicólogo homem, experiente, com nota 4.8 e 400 avaliações e… uma psicóloga jovem, com nota 5.0, mas apenas 30 avaliações.
Sobre esse momento da vida de Jason, escrevi:
«Há minutos mais longos que outros.
O primeiro beijo, o primeiro abraço,
O primeiro toque.
Há memórias guardadas no bolso.
O cheiro do queijo, a dor do aço,
O ar do galope.
Há vidas findas no berço,
Imaginadas, cogitadas,
Não correspondidas ou não vividas.
Histórias mal contadas
De amores platônicos.
Inexistentes, inoportunos, incompreendidos.
Há lágrimas que não secam.
Que tocam o chão, ou a roupa,
Ou a pele, ou o outro, ou o livro.
Há livros que livram a alma,
Que te retratam, que te atacam,
Te botam em ridículo e te arrancam um suspiro.
Livros sem sentido,
Para quem não sentiu isso,
Para quem viveu escondido em domo de aço.
Há minutos mais longos que outros.
O último beijo, o último abraço,
O último laço e a última linha.»
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